close
História

ORSON WELLES, 1942, FAZ HISTÓRIA EM FORTALEZA

quatro_homens_e_uma_jangada_beberibe_descubra_beberibe

Há muito tempo em que “sonhava” em fazer um thread sobre a vinda do cineasta norte-americano Orson Welles (06/05/1915, Kenosha, EUA / 10/10/1985, Hollywood, EUA) a Fortaleza –CE, em plena década de 40.
Bom, esse projeto nasceu a partir de alguns acontecimentos:
-Em meados dos anos 90 conversei com um dos donos da Aba-Film, tradicional empresa de filmes e cartões-postais do Ceará, criada em 1924 pela família Albuquerque. Lá, pela primeira vez, fiquei sabendo que um dia na vida, Orson Welles esteve no Ceará, pois um dos fotógrafos, Chico Albuquerque, pioneiro na foto publicitária do País, participou do projeto do filme.
-Depois anos mais tarde vi as primeiras cenas do filme a partir de um documentário feito por duas emissoras: Tv Cultura e TVE- Rio. Um deles, o humorista e arquiteto “Falcão” comentava sobre Fortaleza e comparava a cidade (ainda sem prédios na orla) dos anos 40, com a atual, cercada por edifícios. E comentou sobre a vinda de Welles no Ceará.
-Assim fiquei encantado com a história do filme e a chegada de Welles.
-A partir daí comecei a pesquisar na Internet, vídeos e livros.
-O primeiro livro já tinha há um bom tempo, o “Pensamento Vivo” de Orson Welles, uma coleção dos pensadores, da Martin Claret Editores (1986).
-Até que recentemente, na semana passada, comprei o belíssimo livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.

Bom, apresento algumas considerações importantes, pois é muita história envolvida, p/ depois chegarmos nas fotos e vídeos:

Fortaleza em 1942 apresentava um pouco mais de 150 mil habitantes. Dormia-se cedo, por volta das 21 horas. A beira-mar era vazia, não havia edifícios, somente casas de pescadores. O Mucuripe era de difícil acesso.
No início dos anos 40, quatro pescadores brasileiros se lançaram ao mar para uma viagem que entrou para a história dos jangadeiros cearenses, da navegação, do Estado Novo e do cinema. Tão arriscada foi ela, que até na imprensa americana ganhou espaço nobre. Num artigo intitulado Four Men on a Raft (Quatro Homens numa Jangada), a revista Time (8/12/1941) reproduziu toda a odisséia de Manoel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manuel Pereira da Silva (Mané Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo), que a bordo de uma jangada singraram os 2.381 km que separam Fortaleza do Rio de Janeiro, sem bússola ou carta náutica.
Foram mais de 61 dias de viagem pelo mar
Os jangadeiros queriam chamar a atenção do País e do governo para o estado de abandono em que viviam os 35 mil pescadores do Ceará.

Até que….então…

Na primeira semana de dezembro de 1941, folheando a Time, Orson Welles tomou conhecimento da proeza de Jacaré & cia., e teve um estalo: ali estava o segundo episódio brasileiro de It’s All True, o filme pan-americano que o governo Roosevelt há pouco lhe encomendara.
Welles chegou ao Brasil em 8 de fevereiro de 1942, filmou o carnaval carioca, e em 8 de março fez uma viagem de reconhecimento a Fortaleza. Lá chegou num vôo especial da NAB (Navegação Aérea Brasileira) e foi recebido como “um Napoleão do cinema”. Hospedada no Excelsior Hotel, no centro da cidade, a entourage It’s All True (Welles levou seis acompanhantes, entre os quais Morel, seu fiel assistente Richard Wilson e a tradutora Matilde Kastrup). Dois meses mais tarde, Jacaré e seus três companheiros foram trazidos de avião até o Rio e hospedados no hotel Copacabana Palace. Por 500 mil réis semanais, participariam de algumas cenas do episódio carnavalesco, ao lado de Grande Otelo, rodariam no aeroporto a despedida do Rio e reconstituiriam, numa praia da Barra da Tijuca, a triunfal chegada da jangada ‘São Pedro’ à Baía de Guanabara. Nessa ordem.
Várias tomadas da chegada ao Rio chegaram a ser feitas, no dia 19, mas uma manobra infeliz da lancha que rebocava a jangada a teria virado na praia de São Conrado, jogando ao mar agitado os seus quatro tripulantes. Três se salvaram. O corpo de Jacaré desapareceu e nunca foi encontrado.
Ainda assim, Welles foi em frente. As coações, quase sempre veladas, da ditadura getulista o perturbavam bem menos que o assédio crescente da RKO e do governo americano, que o acusavam de gastar dinheiro a rodo.
Do Rio, novamente Welles desembarcara na Base Aérea de Fortaleza às 15h30 do dia 13 de junho. Apesar do que ocorrera com Jacaré, foram acolhidos com enorme simpatia. Para assegurar maior tranqüilidade aos trabalhos, estabeleceram-se nas areias do Mucuripe e ali rodaram a história de amor do jovem pescador (José Sobrinho) com uma bela morena (Francisca Moreira da Silva, então com 13 anos), o casamento dos dois, a morte do jangadeiro e seu enterro nas dunas, a conseqüente revolta dos pescadores pelas suas precárias condições de vida e a decisão política do reide até o Rio de Janeiro. No papel de Jacaré, puseram seu irmão Isidro.

Em Fortaleza, Welles revelou-se um homem radicalmente diferente do garotão farrista e mulherengo que os cariocas conheceram. Não deixou de ir a festas (chegou a marcar quadrilha num folguedo junino), nem de freqüentar o Jangada Clube, mas parou de beber e deu um duro danado nas seis semanas que lá passou, correndo contra o relógio e fazendo malabarismos com o orçamento. Sempre alegre, passou a viver com os pescadores, que o tratavam de “galegão legal” e admiravam o seu desprendimento de confortos materiais e sofisticações culinárias. Dormia numa cabana rústica, mal protegida dos raios solares, e à noite, depois de encarar um portentoso prato de feijão com arroz e peixe, recolhia-se para escrever madrugada adentro.
Fonte: Estadão

O filme “It’s All True” ficou inacabado, mas ele filmou tudo. O problema era a questão da censura, tanto do estúdio RKO quanto do Estado Novo. Eu sei que boa parte do filme ficou escondida, tem aquela história de que muita coisa foi jogada ao mar.
fonte: Diário do Nordeste (ler abaixo, no final, entrevista com o autor de “Orson Welles no CE”, Firmino Holanda

O filme “It’s All True” ficou inacabado, mas ele filmou tudo. O problema era a questão da censura, tanto do estúdio RKO quanto do Estado Novo. Eu sei que boa parte do filme ficou escondida, tem aquela história de que muita coisa foi jogada ao mar.
fonte: Diário do Nordeste (ler abaixo, no final, entrevista com o autor de “Orson Welles no CE”, Firmino Holanda


 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Capa de vídeo do filme inacabado. Na distância do tempo, um Welles desenhado sereno e mítico se sobrepõe no exotismo nostálgico do Brasil de carnavais, jangadas e coqueiros…

 

Postal que tb ilustrou o livro “O Ceará”, 2ª edição, de 1945
Praia de Iracema, num postal raro de 1946 Só p lembrar que nessa praia, em 1941, os jangadeiros saíram de Fortaleza em direção ao RJ, p/ reivindicar melhores condições de trabalho. 61 dias, sem bússola, demorou a viagem!

 

 

 

 

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Edifício do Cine Diogo, anos 40 Aqui, Welles foi barrado…só se entrava de paletó Welles pelo Ceará – vez por outra enriquecido com fatos pitorescos, como a barracão do cineasta na porta do Cine Diogo, que não permitia a entrada de homens em mangas de camisa.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
O Mucuripe era de difícil acesso. Só moravam pescadores.

 

 

 

foto: Chico Albuquerque www.chicoalbuquerque.com.br
A praia ao fundo
Arquivo Nirez
O porto do Mucuripe estava em construção nessa época, 1942. Imagem rara aérea do porto em construção. Notar a praia do futuro, à esquerda, sem nada…
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
O Velho Farol de Mucuripe, tombado. Aqui em 1942.
A praia em que Welles gravou as cenas e se encantou. O Mucuripe e suas jangadas, p/ mim, é um dos símbolos do Ceará. Este postal tb é dos anos 40…
Este postal abaixo retrata um pouco do que é o Mucuripe e que Welles viu. Também dos anos 40.

 

 

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
2ª parte (A SAGA DOS JANGADEIROS CEARENSES) Começaremos com a ida dos jangadeiros cearenses em 1941 de Fortaleza p/ o Rio de Janeiro. Lá, Jacaré foi conversar com o presidente Vargas p/ reivindicar melhores condições de trabalho. A viagem durou 61 dias, sem bússola. Welles se encantou com o fato….. Ida dos jangadeiros ao Rio, saíram de Iracema
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Na volta p/ Fortaleza (CE). Foram de avião…11 horas de viagem.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
O pescador Jacaré fica famoso e dá entrevista em rádio local
Foto do livro "Pensamento vivo de Welles"
Vargas recebe Welles.

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Foto rara de Orson Welles desembarcando em Fortaleza, 1942 Chegou de um avião da ‘Navegação Aérea Brasileira’, no aerodrómo “Alto da Balança”, uma parte do que é hoje o Aeroporto Internacional Pinto Martins Estava sorridente e engraçado, como sempre.

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Capa histórica do jornal “O Povo”, mencionando a celebridade, autor de “Cidadão Kane”, chegando em Fortaleza.

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Welles e sua câmera portátil…

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
A orla de Fortaleza ao fundo e Welles no sol do Ceará.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Baldes p/ formar ondas…Repare Welles.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Casamento jangadeiro.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Script e desenho, por Orson Welles.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Um, dois, três gravando! Claquete…
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Welles gravando ao lado de Calmon.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
O Mucuripe ao fundo, o farol e Welles.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Jacaré e Welles se divertindo. Uma das últimas fotos
de Jacaré, antes de falecer no mar de São Conrado-RJ.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Orson Welles com jangadeiros.
Os jangadeiros no Carnaval carioca.
Welles vendo as cenas e as dunas do Mucuripe.

 

 

 

 

 

Curiosidades sobre o filme
Matéria na Revista Portuguesa ‘O Século Ilustrado’, de 1946

 

 

Quem foi Chico Albuquerque

Um programa de boa vizinhança entre os Estados Unidos e o Brasil, em plena II Guerra Mundial, resultou no encontro de dois grandes mestres: o cineasta Orson Welles e o fotógrafo Chico Albuquerque.

O ano era 1942. Em busca de apoio local, após aportar em Fortaleza buscando imagens de um Brasil exótico, o cineasta norte-americano convidou o fotógrafo Chico Albuquerque, na época com 25 anos, para fazer a fotografia do filme “It´s All True”.

A parceria gerou imagens que mostram e enaltecem o maior ícone brasileiro do mar – o jangadeiro – como também uma relação de amizade, que resultou na troca de correspondências ao longo de muitos anos.

Segundo o próprio Chico Albuquerque, foi com Orson Welles que ele ouviu, pela primeira vez, falar em divisão áurea do retângulo. Dez anos depois, Chico Albuquerque, ainda com a fotografia e a luz do filme em mente, registra definitivamente as jangadas e os pescadores do Mucuripe.

Francisco Albuquerque nasceu em Fortaleza em 25 de abril de 1917. Iniciou a carreira de fotógrafo aos quinze anos, através do cinema, fazendo um documentário de curta-metragem.

Em 1934, profissionalizou-se como retratista, transferindo-se em 1945 para São Paulo. Pioneiro na foto publicitária do País, Chico Albuquerque inovou em 1948, registrando modelo e produto para uma campanha da Johnson & Johnson, assinada pela agência J.W. Thompson.

Visonário, importou em 1958 o primeiro equipamento de flashs eletrônicos do Brasil. O fotógrafo que fez o still do filme “It´s All True”, de Orson Welles (1942), ficou para sempre marcado pela luz do Ceará, pela simplicidade da jangada e pela capacidade de expressar, em seus trabalhos, a força expressionista do brasileiro.

Participou de inúmeras exposições e mostras nacionais e internacionais de fotografia, obtendo Medalhas de Ouro em Frankfurt, Turim e Buenos Aires.

Considerações:

Welles ficou no Ceará por 06 semanas. O filme fazia parte da política da Boa Vizinhança, uma forma de os EUA manter sob-tutela os países latino-americanos.
Muitos rolos do filme foram jogados em alto-mar…
Com locações no Rio, Fortaleza, Bahia, pedaços de São Luís, Recife, e México, e com a maior parte da locação feita na ponte-aérea RJ-CE, sobraria a montagem póstuma do material considerado perdido, realizado por Welles, em 1942
O episódio cearense, “Quatro homens numa jangada”, mostrar-se-ia o mais completo daquilo a ser resgatado. São 46 minutos buscando respeitar o roteiro original, com uma folha de 12 cenas principais.
O público brasileiro teve acesso ao filme, pela primeira vez na história, somente em 1986 e 1994. Em 1985 o público de Fortaleza assistira o longa “Nem tudo é Verdade”, de Rogério Sganzerla, recriação dramatizada da passagem de Welles pelo Brasil. Nessa época, o Globo Repórter também apresentou as cenas.
Já em 1994, o público viu as imagens editadas que Welles fez dos jangadeiros; o trabalho reúne depoimentos antigos sobre o inacabado filme, resgatando imagens cariocas do Carnaval, jangadeiros cearenses, com 42 minutos e o segmento mexicano do filme “My friend bonito”.
Welles ficou hospedado no Excelsior Hotel, o primeiro arranha-céu de Fortaleza, levantado em 1931. Bebeu guaraná e fazia reuniões no Jangada Club, primitiva construção, infelizmente demolida nos anos 80. Lá, se encontrava, nas paredes, autógrafos do cineasta. Uma pena.

Foto do Jangada Club, do Museu de Imagem e do Som (MIS-CE)

Welles soube da existência do Dragão Mar (José do Nascimento), o herói abolicionista cearense que se recusava a desembarcar os escravos. Sabe-se que o Ceará foi o primeiro Estado a abolir a escravatura, por isso, chamado de “Terra da Luz”.

Curiosidades:

Welles foi um dos dez maiores cineastas de todos os tempos.
Cidadão Kane (1941) um dos maiores ícones do cinema, filme de Welles.
“It’s all true”: Para Welles seria o melhor filme do mundo, mas “este foi o desastre de minha história”

Foto:


crédito: Diário do NE

A notícia de que marcianos haviam chegado à Terra e estavam em Nova Jersey foi transmitida com imenso realismo pela rádio CBS no dia 1o de novembro de 1938 (Halloween). Milhares de pessoas entraram em pânico e começaram a fugir de suas casas ao ouvir os boletins, narrados por Orson Welles. Tudo não passava de pura brincadeira, a leitura dramatizada do texto de ”A Guerra dos Mundos”, um clássico da ficção científica de H.G. Wells.

Créditos deste trabalho:
– Livro“Pensamento Vivo” de Orson Welles, uma coleção dos pensadores, da Martin Claret Editores (1986).
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Arquivo Nirez / Arquivo Firmino Holanda
Banco de Dados O Povo
Casa Pirata de Fortaleza
Sites, Revistas, Jornais:
filme http://www.lmm.jussieu.fr/~lagree/DI…ngadaINDX.html
http://www.arkepix.com/kinok/DVD/WEL…_all_true.html
Multiply.com (by Isabel)
Diário do Nordeste
Estadão
Educação UOL
Reportagem de Welles (Revista Antiga Portuguesa, ‘O século Ilustrado, de 1946’))

Entrevista com Firmino Holanda, autor de Orson Welles no CE

***Orson Welles entre nós – Matéria Diário do Nordeste, 2001
No primeiro semestre de 1942, Orson Welles veio ao Brasil, com passagem pelo Ceará, para produzir um filme que retratasse a realidade da América Latina. A primeira vista, o projeto se revestia de um caráter oficial – era fruto de uma aproximação cultural intensa entre o governo norte-americano e os países do Cone Sul. Indomável como sempre, Welles rodava um filme sobre a América Latina sim, mas ao seu estilo, sem concessões. A ousadia lhe custou os incentivos e a concretização do filme. Findado os episódios, sobram especulações e faltam explicações detalhadas sobre a aventura do cineasta por estas plagas. Crítico de cinema e historiador, Firmino Holanda tenta jogar uma luz neste nevoeiro em “Orson Welles no Ceará”.

Na obra, o autor reconstrói a controversa passagem do cineasta pelo Estado, seus contatos com os jangadeiros e os pormenores desta relação. Na ocasião, serão apresentadas as cenas cearenses de “It’s All True”.

Caderno 3 – Como surgiu a idéia de produzir um livro sobre a passagem de Orson Welles no Ceará?
Firmino Holanda – Eu sempre pesquisei cinema cearense, desde o final dos anos 70, e no caso do Orson Welles especificamente – que é um assunto fascinante, um gênio filmar aqui em Fortaleza -, eu me motivei quando li um texto do Alex Vianni, crítico de cinema, no Jornal do Brasil. Então me interessei e passei a pesquisar, a juntar os fragmentos dessa história que nunca foi contada no todo. Inclusive esse meu livro, que eu saiba, é o primeiro livro do Orson Welles no Brasil. Então desde os anos 80, eu junto material, escrevo. A matriz mesmo foi um pequeno ensaio que eu publiquei na revista “Nação Cariri”, em 1986, em que eu juntava os primeiros fragmentos coletados. Apenas para avançar: eu preparo há muitos anos um livro sobre a história do cinema no Ceará – tudo que foi filmado aqui, por nós particularmente. Aí o Orson Welles entrou também na história. Mas eu tinha um certo pudor porque ele é um estrangeiro. Mas quando eu vi o filme mesmo, as imagens de Orson Welles no Ceará – um filme de 46 minutos, mostrando a nossa vida, a nossa realidade – eu disse que este filme é nosso mesmo. Então, nesse meu livro tem um capítulo sobre Orson Welles, mas que se detém aos aspectos cinematográficos. Como a pesquisa estava crescendo, eu preferi fazer um livro separado. Fisguei o capítulo – não o retirei do livro – e o ampliei ao máximo: fiz uma análise comparando ele ao Eisenstein, aprofundei a questão da política da boa vizinhança, a questão do Mucuripe, os causos em torno do diretor. Fiz um livro maior e recebi o convite para publicá-lo.

Caderno 3 – O fato aconteceu no início dos anos 40, durante a chamada “política da boa vizinhança”. Você poderia explicar por que Welles decidiu vir para o Ceará?
Firmino Holanda – A interferência norte-americana no continente sempre ocorreu, através da violência ou não. Quando chega a década de 30, essa coisa se atenua, tem a diplomacia do dólar, o panamericanismo, outra formas de se chegar na América Latina sem ser no “canhão”. Quando estoura a Segunda Guerra Mundial, o Brasil vivia o Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, que namorava com a Alemanha nazista. Mas os Estados Unidos queriam estender a sua influência sobre o continente por questões econômicas, militares. Então, eles pressionavam o governo Vargas para ceder as suas bases e também se juntar com os aliados contra o fascismo. Cria-se, então, um birô interamericano, liderado por Nelson Rockfeller, um magnata e dono de estúdio com pretensões de ser presidente. Este birô vai traçar uma política de aproximação cultural com a América Latina, com um segmento ligado ao cinema – até então, os filmes feitos sobre a América Latina eram folclorizantes. Orson Welles vem nesse bojo: “coloquemos o homem que fez Cidadão Kane para realizar um filme latino-americano de qualidade”. Mas os problemas surgiram porque a visão dele não era condizente com a visão turística, atenuada da realidade. Ele mostrava negros dançando carnaval, favelas, os pescadores pobres e isto criou um mal-estar junto à censura do Estado Novo, atribulou a política da boa vizinhança.

Caderno 3 – Por conta deste choque de interesses, ele teve as verbas do filme suspensas e seguiu para o Rio de Janeiro. Como foi o encontro com os pescadores?
Firmino Holanda – Ele chegou primeiro no Rio de Janeiro, no carnaval de 1942, para filmar a festa, criar uma história sobre o carnaval. Quando terminou, ele veio à Fortaleza para manter os primeiros contatos com os jangadeiros, porque ele tinha interesse em filmar a história dos jangadeiros cearenses que viajaram, durante 61 dias, até o Rio de Janeiro, para chamar a atenção pública paras as condições de vida dos pescadores – era um ato político. Ele queria filmar este episódio, que foi matéria na revista Time. O Orson Welles leu este artigo e ficou encantado. Ele levou alguns jangadeiros para o Rio, para filmar a cena da chegada deles – ele começou pelo final. Ele filmou as cenas e foi quando aconteceu o acidente que fez desaparecer o Jacaré, um dos jangadeiros. O filme ficou num impasse, mas Welles estava decidido a finalizá-lo. Em junho ele retornou à Fortaleza para concluir as filmagens. O filme “It’s All True” ficou inacabado, mas ele filmou tudo. O problema era a questão da censura, tanto do estúdio RKO quanto do Estado Novo. Eu sei que boa parte do filme ficou escondida, tem aquela história de que muita coisa foi jogada ao mar.

Caderno 3 – Mas alguma parte deste material foi recuperada?
Firmino Holanda – O Orson Welles morreu em 1985, mas pouco antes, um pesquisador encontrou os negativos no acervo da Paramount – a RKO já não existia mais. Depois da morte do Welles, eles começaram a fazer uma recuperação destas imagens e ainda bem que a parte cearense ficou preservada, pelo menos é o que se percebe no documentário “It’s All True” sobre o filme inacabado. A parte cearense está completa, com pouco mais de 40 minutos, sem cortes. O documentário mostra o Mucuripe, os pescadores construindo jangadas, fazendo redes, a história da viagem, a passagem por Recife e Salvador, a chegada ao Rio de Janeiro.
Muito obrigado. http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=723286     Sílvio Caldas – JANGADA – Hervé Cordovil – Vicente Leporace

VEJA MAIS:

Beberibe, terra de heróis

A saga dos jangadeiros em busca de seus direitos

Tags : beberibehistóriahistórias do povoJangada São PedroOrson WellesRaide jangada São Pedro

Deixe seu comentário