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Nove horas do dia 14 de setembro de 1941. Quatro jangadeiros – Jacaré, Jerônimo, Tatá e Mané Preto – partem da Praia do Peixe, em Fortaleza, para realizar uma dos maiores feitos da náutica brasileira: navegar em uma jangada até o Rio de Janeiro, então Capital Federal, para pedir ao Presidente Getúlio Vargas direitos sociais para os 35 mil jangadeiros do Ceará.

A bordo da jangada São Pedro, não levavam consigo nada que não fosse o próprio conhecimento  – nenhum instrumento de navegação, nenhuma bússola ou carta náutica. Eram apenas quatro homens e uma jangada.

Como numa novela, o país acompanhou pelas rádios e jornais todo o desenrolar da aventura dos jangadeiros. Pouco mais de dois meses e 1650 milhas náuticas depois, navegando predominantemente com ventos e correntes contrárias, chegaram triunfantes à Baía de Guanabara, onde a população se aglomerava para recebê-los.

Getúlio não poderia deixar de fazer o mesmo, dada a popularidade alcançada pelos jangadeiros. Já o almejado direito à aposentadoria só viria 30 anos depois.

Na rota da São Pedro, contudo, cruzou-se uma outra: a do cineasta Orson Welles, um dos maiores nomes do cinema mundial, cujo centenário foi comemorado este mês. Hollywood havia encomendado a Welles um documentário sobre o Brasil, como parte do esforço norte-americano de atrair Getúlio à esfera aliada na Segunda Guerra.

Welles havia lido uma reportagem a respeito da travessia dos jangadeiros na revista Time e se encantou com o assunto, que virou um dos episódios do seu célebre e inacabado documentário “É Tudo Verdade”.

Sua vinda para o Brasil, a temporada no Ceará, o temperamento expansivo e despojado do “galegão” foram marcantes e resultaram num dos mais belos registros visuais do cotidiano dos jangadeiros do nordeste: o episódio “Four Men on a Raft”, uma montagem post-mortem das cenas filmadas por Welles, disponível no YouTube, um filme que vale a pena assistir.  São 46 minutos de pura poesia visual.

O filme inacabado de Welles conferiu notoriedade e repercussão à travessia da São Pedro e à causa dos jangadeiros, mas cobrou um alto preço. Nas refilmagens da chegada ao Rio de Janeiro, em maio de 1942, um acidente com a jangada derruba os homens ao mar.  Apesar de exímio nadador, Jacaré desaparece nas águas revoltas da Guanabara. Seu corpo jamais foi encontrado.

 

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