close

histórias do povo

História

Quatro homens e uma jangada

JangadeirosindoparaoRJ_filme_cinema

Nove horas do dia 14 de setembro de 1941. Quatro jangadeiros – Jacaré, Jerônimo, Tatá e Mané Preto – partem da Praia do Peixe, em Fortaleza, para realizar uma dos maiores feitos da náutica brasileira: navegar em uma jangada até o Rio de Janeiro, então Capital Federal, para pedir ao Presidente Getúlio Vargas direitos sociais para os 35 mil jangadeiros do Ceará.

A bordo da jangada São Pedro, não levavam consigo nada que não fosse o próprio conhecimento  – nenhum instrumento de navegação, nenhuma bússola ou carta náutica. Eram apenas quatro homens e uma jangada.

Como numa novela, o país acompanhou pelas rádios e jornais todo o desenrolar da aventura dos jangadeiros. Pouco mais de dois meses e 1650 milhas náuticas depois, navegando predominantemente com ventos e correntes contrárias, chegaram triunfantes à Baía de Guanabara, onde a população se aglomerava para recebê-los.

Getúlio não poderia deixar de fazer o mesmo, dada a popularidade alcançada pelos jangadeiros. Já o almejado direito à aposentadoria só viria 30 anos depois.

Na rota da São Pedro, contudo, cruzou-se uma outra: a do cineasta Orson Welles, um dos maiores nomes do cinema mundial, cujo centenário foi comemorado este mês. Hollywood havia encomendado a Welles um documentário sobre o Brasil, como parte do esforço norte-americano de atrair Getúlio à esfera aliada na Segunda Guerra.

Welles havia lido uma reportagem a respeito da travessia dos jangadeiros na revista Time e se encantou com o assunto, que virou um dos episódios do seu célebre e inacabado documentário “É Tudo Verdade”.

Sua vinda para o Brasil, a temporada no Ceará, o temperamento expansivo e despojado do “galegão” foram marcantes e resultaram num dos mais belos registros visuais do cotidiano dos jangadeiros do nordeste: o episódio “Four Men on a Raft”, uma montagem post-mortem das cenas filmadas por Welles, disponível no YouTube, um filme que vale a pena assistir.  São 46 minutos de pura poesia visual.

O filme inacabado de Welles conferiu notoriedade e repercussão à travessia da São Pedro e à causa dos jangadeiros, mas cobrou um alto preço. Nas refilmagens da chegada ao Rio de Janeiro, em maio de 1942, um acidente com a jangada derruba os homens ao mar.  Apesar de exímio nadador, Jacaré desaparece nas águas revoltas da Guanabara. Seu corpo jamais foi encontrado.

 

Fonte

 

Veja mais:

Orson Welles faz história em Fortaleza

A saga dos jangadeiros em busca de seus direitos

O raid da jangada São Pedro: pescadores, Estado Novo e luta por direitos

Leia Mais
CulturaHistória

Papangus criatividade e tradição nas comunidades de Beberibe

papangus

 

A brincadeira dos Papangus é uma manifestação que faz parte da cultura local e se une à Queima do Judas, no período da Semana Santa mobilizando adultos, jovens e crianças.

A tradição manda e as pessoas saem fantasiadas e mascaradas, brincando de assustar moradores e transeuntes pelas ruas. Elas carregam o boneco do Judas, dançam, cantam animadas, andam por toda a comunidade. Durante a festa, à noite, começa a queimação de Judas, onde o boneco incendiado é elevado a um tronco alto. Em algumas comunidades, como na Prainha do Canto Verde, ao final os Papangus lêem o testamento de Judas, com versos feitos por artistas da terra direcionados aos moradores em virtude de algum acontecimento engraçado.

Há muitas versões sobre a origem dos papangus. Uma delas remonta aos tempos da escravidão no Brasil. Os negros escravos aproveitavam o carnaval para se cobrir por inteiro e, irreconhecíveis, terem acesso à Casa Grande, onde se fartavam, seguros de que totalmente coberto pelas fantasias não seriam  identificados.

Outra versão liga a uma tradição da Igreja Católica. No Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo informa que “o termo papangu vem de uma espécie grosseira, assim apelidada, e que, à espécie de farricoco (encapuzado que acompanhava as procissões de penitência tocando trombeta de vez em quando), tomava parte nas extintas procissões de cinzas, caminhando a sua frente, armado de um comprido relho (chicote de couro torcido), com que ia fustigando o pessoal que impedia a sua marcha”.

Até hoje a criatividade na confecção das fantasias, em inúmeros casos utilizando elementos naturais, meias nas mãos e pés para que nenhuma parte do corpo fique visível, tem como objetivo impedir a identificação de quem a usa, se tornando um grande motivo para brincadeira e diversão dos que participam da festa.

A festa é curiosa, é quase um Halloween cheio de originalidade em Beberibe.

Onde?

Prainha do Canto Verde
Sucatinga
Caetano
Cumbe
Uruaú

 

Quando?

Semana Santa.

Confira aqui a programação deste ano.

Leia Mais
História

Mais jangadas e jangadeiros

cenas_filme_orson_welles_brasil_3

A travessia de 1941, certamente a mais célebre, não foi a única e sequer a primeira ou a mais longa. Entre 1922 e 1993 foram ao menos nove travessias de jangadeiros, a maioria delas partindo de Fortaleza, com destinos que incluem Rio de Janeiro, Ilhabela, Santos, Porto Alegre e até mesmo Buenos Aires.

Na sua maioria, elas tinha o objetivo de chamar a atenção para as questões sociais que envolvem o jangadeiro nordestino. Outras foram feitas para comemorar o Centenário da Independência (a primeira delas, em 1922) e até mesmo homenagear João Goulart, vice-presidente de JK em 1958 e visto como herdeiro político de Getúlio. A jangada, que partiu de Fortaleza em 15 de novembro de 1958 e  chegou Buenos Aires em 21 de abril de 1959, chamava-se Maria Teresa Goulart, a mulher de Jango.

A memória destes jangadeiros não pode ser esquecida. Com suas jangadas, eles representam melhor que ninguém um traço essencial do brasileiro: a criatividade e a capacidade técnica de fazer tanto com tão pouco.

Nós admiramos e celebramos, não sem razão, Amyr Klink, Beto Pandiani ou, mais remotamente, travessias como a de Thor Heyerdahl do Perú à Polinésia. Precisamos colocar nos nossos Jacarés, Jerônimos, Tatás e Manés Pretos no mesmo patamar. Mesmo sem a ajuda de Orson Welles.

Para conhecer melhor a história da travessia de 1941, vai ai o link da excelente tese de pós-graduação da historiadora Berenice Abreu, “O Raid da Jangada São Pedro: Pescadores, Estado Novo e a Luta Por Direitos” : http://bit.ly/1KFcHch

O link para “Four Men on a Raft” é http://bit.ly/1PVjen1. Abaixo, comecei a consolidar uma relação das travessias de altura feitas com jangadas. Os dados não são muito confiáveis. Quem puder colaborar com informações seguras, agradeço e compartilho

Travessias de Jangada

1922 ­– Fortaleza ao Rio de Janeiro
Comemoração do Centenário da Independência
Jangadas Ypiranga e Justiniano de Serpa

  1. Mestre J. Bernardino de Paula
    2. Francisco Pereira da Silva
    3. Francisco Silva da Costa
    4. Manoel F. de Andrade
    5. Francisco C. da Costa
    6. Possidônio F. Barbosa
    7. Luis R. da Costa
    8. Antonio F. Barbosa

1928 – Fortaleza ao Rio de Janeiro
Comemoração da Independência
1. Mestre Bernardino Fernando do Nascimento
2. José Isidoro dos Santos 

1941 – Fortaleza ao Rio de Janeiro
Reivindicar direitos sociais

Jangada São Pedro

  1. Mestre Jerônimo André de Souza
    2. Mestre Manoel Olímpio de Meira (Jacaré)
    3. Raimundo Correia Lima (Tatá)
    4. Manoel Pereira da Silva (Mané Preto)

1951 – Fortaleza a Porto Alegre
Encontrar o Getúlio e Pedir o cumprimento das promessas feitas 10 anos antes
Jangada N.S. Assunção
1. Mestre Jerônimo Andre de Souza
2. Raimundo Correia Lima (Tatá)
3. Manuel Pereira da Silva (Mané Preto)

  1. Manuel Lopes Martins
    5. Manuel Batista Pereira

1958 – Fortaleza a Buenos Aires
Homenagear o vice-presidente Jango, amigo de Getúlio
Jangada Maria Teresa Goulart
1. Mestre Jerônimo Andre de Souza
2. José de Lima
3. Samuel Isidro
4. Luis Carlos de Souza, Mestre Garoupa 

1967 – Fortaleza a Santos
1. Luis Carlos de Souza, Mestre Garoupa
2. José de Lima
3. João Rodrigues da Costa
4. Manoel Bezerra de Lima
5. Manoel Antonio de Lima 

1968 – Maceió ao Rio de Janeiro
1. Mestre João Batista Leitão

  1. Nino
    3. Hélio Marcolino
    4. Pedro Ernesto

1972 – Fortaleza a  Ilhabela
Reivindicar direitos sociais ao Presidente Emílio Médici
Jangada Mestre Limaverde
1. Mestre José Eremilson Severiano da Silva
2. José Maria da Silva, o Zé Surrão
3. Aristófanes Bilac de Carvalho
4. Edmilson Sales Silva
5. Benedito Lopes de Souza 

1993 – Fortaleza ao Rio de Janeiro
Protestar contra condições do litoral cearense
Jangada S.O.S. Sobrevivência
1. Mestre Mamede Dantas Lima
2. Francisco Abílio
3. Francisco Valente da Silva
4. Edilson Fernandes

 

Fonte

 

Veja mais:

Orson Welles faz história em Fortaleza

A saga dos jangadeiros em busca de seus direitos

O filme: FOUR MEN IN THE RAFT 1942 

O raid da jangada São Pedro: pescadores, Estado Novo e luta por direitos

Leia Mais
História

ORSON WELLES, 1942, FAZ HISTÓRIA EM FORTALEZA

quatro_homens_e_uma_jangada_beberibe_descubra_beberibe

Há muito tempo em que “sonhava” em fazer um thread sobre a vinda do cineasta norte-americano Orson Welles (06/05/1915, Kenosha, EUA / 10/10/1985, Hollywood, EUA) a Fortaleza –CE, em plena década de 40.
Bom, esse projeto nasceu a partir de alguns acontecimentos:
-Em meados dos anos 90 conversei com um dos donos da Aba-Film, tradicional empresa de filmes e cartões-postais do Ceará, criada em 1924 pela família Albuquerque. Lá, pela primeira vez, fiquei sabendo que um dia na vida, Orson Welles esteve no Ceará, pois um dos fotógrafos, Chico Albuquerque, pioneiro na foto publicitária do País, participou do projeto do filme.
-Depois anos mais tarde vi as primeiras cenas do filme a partir de um documentário feito por duas emissoras: Tv Cultura e TVE- Rio. Um deles, o humorista e arquiteto “Falcão” comentava sobre Fortaleza e comparava a cidade (ainda sem prédios na orla) dos anos 40, com a atual, cercada por edifícios. E comentou sobre a vinda de Welles no Ceará.
-Assim fiquei encantado com a história do filme e a chegada de Welles.
-A partir daí comecei a pesquisar na Internet, vídeos e livros.
-O primeiro livro já tinha há um bom tempo, o “Pensamento Vivo” de Orson Welles, uma coleção dos pensadores, da Martin Claret Editores (1986).
-Até que recentemente, na semana passada, comprei o belíssimo livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.

Bom, apresento algumas considerações importantes, pois é muita história envolvida, p/ depois chegarmos nas fotos e vídeos:

Fortaleza em 1942 apresentava um pouco mais de 150 mil habitantes. Dormia-se cedo, por volta das 21 horas. A beira-mar era vazia, não havia edifícios, somente casas de pescadores. O Mucuripe era de difícil acesso.
No início dos anos 40, quatro pescadores brasileiros se lançaram ao mar para uma viagem que entrou para a história dos jangadeiros cearenses, da navegação, do Estado Novo e do cinema. Tão arriscada foi ela, que até na imprensa americana ganhou espaço nobre. Num artigo intitulado Four Men on a Raft (Quatro Homens numa Jangada), a revista Time (8/12/1941) reproduziu toda a odisséia de Manoel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manuel Pereira da Silva (Mané Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo), que a bordo de uma jangada singraram os 2.381 km que separam Fortaleza do Rio de Janeiro, sem bússola ou carta náutica.
Foram mais de 61 dias de viagem pelo mar
Os jangadeiros queriam chamar a atenção do País e do governo para o estado de abandono em que viviam os 35 mil pescadores do Ceará.

Até que….então…

Na primeira semana de dezembro de 1941, folheando a Time, Orson Welles tomou conhecimento da proeza de Jacaré & cia., e teve um estalo: ali estava o segundo episódio brasileiro de It’s All True, o filme pan-americano que o governo Roosevelt há pouco lhe encomendara.
Welles chegou ao Brasil em 8 de fevereiro de 1942, filmou o carnaval carioca, e em 8 de março fez uma viagem de reconhecimento a Fortaleza. Lá chegou num vôo especial da NAB (Navegação Aérea Brasileira) e foi recebido como “um Napoleão do cinema”. Hospedada no Excelsior Hotel, no centro da cidade, a entourage It’s All True (Welles levou seis acompanhantes, entre os quais Morel, seu fiel assistente Richard Wilson e a tradutora Matilde Kastrup). Dois meses mais tarde, Jacaré e seus três companheiros foram trazidos de avião até o Rio e hospedados no hotel Copacabana Palace. Por 500 mil réis semanais, participariam de algumas cenas do episódio carnavalesco, ao lado de Grande Otelo, rodariam no aeroporto a despedida do Rio e reconstituiriam, numa praia da Barra da Tijuca, a triunfal chegada da jangada ‘São Pedro’ à Baía de Guanabara. Nessa ordem.
Várias tomadas da chegada ao Rio chegaram a ser feitas, no dia 19, mas uma manobra infeliz da lancha que rebocava a jangada a teria virado na praia de São Conrado, jogando ao mar agitado os seus quatro tripulantes. Três se salvaram. O corpo de Jacaré desapareceu e nunca foi encontrado.
Ainda assim, Welles foi em frente. As coações, quase sempre veladas, da ditadura getulista o perturbavam bem menos que o assédio crescente da RKO e do governo americano, que o acusavam de gastar dinheiro a rodo.
Do Rio, novamente Welles desembarcara na Base Aérea de Fortaleza às 15h30 do dia 13 de junho. Apesar do que ocorrera com Jacaré, foram acolhidos com enorme simpatia. Para assegurar maior tranqüilidade aos trabalhos, estabeleceram-se nas areias do Mucuripe e ali rodaram a história de amor do jovem pescador (José Sobrinho) com uma bela morena (Francisca Moreira da Silva, então com 13 anos), o casamento dos dois, a morte do jangadeiro e seu enterro nas dunas, a conseqüente revolta dos pescadores pelas suas precárias condições de vida e a decisão política do reide até o Rio de Janeiro. No papel de Jacaré, puseram seu irmão Isidro.

Em Fortaleza, Welles revelou-se um homem radicalmente diferente do garotão farrista e mulherengo que os cariocas conheceram. Não deixou de ir a festas (chegou a marcar quadrilha num folguedo junino), nem de freqüentar o Jangada Clube, mas parou de beber e deu um duro danado nas seis semanas que lá passou, correndo contra o relógio e fazendo malabarismos com o orçamento. Sempre alegre, passou a viver com os pescadores, que o tratavam de “galegão legal” e admiravam o seu desprendimento de confortos materiais e sofisticações culinárias. Dormia numa cabana rústica, mal protegida dos raios solares, e à noite, depois de encarar um portentoso prato de feijão com arroz e peixe, recolhia-se para escrever madrugada adentro.
Fonte: Estadão

O filme “It’s All True” ficou inacabado, mas ele filmou tudo. O problema era a questão da censura, tanto do estúdio RKO quanto do Estado Novo. Eu sei que boa parte do filme ficou escondida, tem aquela história de que muita coisa foi jogada ao mar.
fonte: Diário do Nordeste (ler abaixo, no final, entrevista com o autor de “Orson Welles no CE”, Firmino Holanda

O filme “It’s All True” ficou inacabado, mas ele filmou tudo. O problema era a questão da censura, tanto do estúdio RKO quanto do Estado Novo. Eu sei que boa parte do filme ficou escondida, tem aquela história de que muita coisa foi jogada ao mar.
fonte: Diário do Nordeste (ler abaixo, no final, entrevista com o autor de “Orson Welles no CE”, Firmino Holanda


 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Capa de vídeo do filme inacabado. Na distância do tempo, um Welles desenhado sereno e mítico se sobrepõe no exotismo nostálgico do Brasil de carnavais, jangadas e coqueiros…

 

Postal que tb ilustrou o livro “O Ceará”, 2ª edição, de 1945
Praia de Iracema, num postal raro de 1946 Só p lembrar que nessa praia, em 1941, os jangadeiros saíram de Fortaleza em direção ao RJ, p/ reivindicar melhores condições de trabalho. 61 dias, sem bússola, demorou a viagem!

 

 

 

 

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Edifício do Cine Diogo, anos 40 Aqui, Welles foi barrado…só se entrava de paletó Welles pelo Ceará – vez por outra enriquecido com fatos pitorescos, como a barracão do cineasta na porta do Cine Diogo, que não permitia a entrada de homens em mangas de camisa.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
O Mucuripe era de difícil acesso. Só moravam pescadores.

 

 

 

foto: Chico Albuquerque www.chicoalbuquerque.com.br
A praia ao fundo
Arquivo Nirez
O porto do Mucuripe estava em construção nessa época, 1942. Imagem rara aérea do porto em construção. Notar a praia do futuro, à esquerda, sem nada…
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
O Velho Farol de Mucuripe, tombado. Aqui em 1942.
A praia em que Welles gravou as cenas e se encantou. O Mucuripe e suas jangadas, p/ mim, é um dos símbolos do Ceará. Este postal tb é dos anos 40…
Este postal abaixo retrata um pouco do que é o Mucuripe e que Welles viu. Também dos anos 40.

 

 

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
2ª parte (A SAGA DOS JANGADEIROS CEARENSES) Começaremos com a ida dos jangadeiros cearenses em 1941 de Fortaleza p/ o Rio de Janeiro. Lá, Jacaré foi conversar com o presidente Vargas p/ reivindicar melhores condições de trabalho. A viagem durou 61 dias, sem bússola. Welles se encantou com o fato….. Ida dos jangadeiros ao Rio, saíram de Iracema
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Na volta p/ Fortaleza (CE). Foram de avião…11 horas de viagem.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
O pescador Jacaré fica famoso e dá entrevista em rádio local
Foto do livro "Pensamento vivo de Welles"
Vargas recebe Welles.

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Foto rara de Orson Welles desembarcando em Fortaleza, 1942 Chegou de um avião da ‘Navegação Aérea Brasileira’, no aerodrómo “Alto da Balança”, uma parte do que é hoje o Aeroporto Internacional Pinto Martins Estava sorridente e engraçado, como sempre.

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Capa histórica do jornal “O Povo”, mencionando a celebridade, autor de “Cidadão Kane”, chegando em Fortaleza.

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Welles e sua câmera portátil…

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
A orla de Fortaleza ao fundo e Welles no sol do Ceará.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Baldes p/ formar ondas…Repare Welles.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Casamento jangadeiro.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Script e desenho, por Orson Welles.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Um, dois, três gravando! Claquete…
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001

 

Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Welles gravando ao lado de Calmon.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
O Mucuripe ao fundo, o farol e Welles.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001.
Jacaré e Welles se divertindo. Uma das últimas fotos
de Jacaré, antes de falecer no mar de São Conrado-RJ.
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Orson Welles com jangadeiros.
Os jangadeiros no Carnaval carioca.
Welles vendo as cenas e as dunas do Mucuripe.

 

 

 

 

 

Curiosidades sobre o filme
Matéria na Revista Portuguesa ‘O Século Ilustrado’, de 1946

 

 

Quem foi Chico Albuquerque

Um programa de boa vizinhança entre os Estados Unidos e o Brasil, em plena II Guerra Mundial, resultou no encontro de dois grandes mestres: o cineasta Orson Welles e o fotógrafo Chico Albuquerque.

O ano era 1942. Em busca de apoio local, após aportar em Fortaleza buscando imagens de um Brasil exótico, o cineasta norte-americano convidou o fotógrafo Chico Albuquerque, na época com 25 anos, para fazer a fotografia do filme “It´s All True”.

A parceria gerou imagens que mostram e enaltecem o maior ícone brasileiro do mar – o jangadeiro – como também uma relação de amizade, que resultou na troca de correspondências ao longo de muitos anos.

Segundo o próprio Chico Albuquerque, foi com Orson Welles que ele ouviu, pela primeira vez, falar em divisão áurea do retângulo. Dez anos depois, Chico Albuquerque, ainda com a fotografia e a luz do filme em mente, registra definitivamente as jangadas e os pescadores do Mucuripe.

Francisco Albuquerque nasceu em Fortaleza em 25 de abril de 1917. Iniciou a carreira de fotógrafo aos quinze anos, através do cinema, fazendo um documentário de curta-metragem.

Em 1934, profissionalizou-se como retratista, transferindo-se em 1945 para São Paulo. Pioneiro na foto publicitária do País, Chico Albuquerque inovou em 1948, registrando modelo e produto para uma campanha da Johnson & Johnson, assinada pela agência J.W. Thompson.

Visonário, importou em 1958 o primeiro equipamento de flashs eletrônicos do Brasil. O fotógrafo que fez o still do filme “It´s All True”, de Orson Welles (1942), ficou para sempre marcado pela luz do Ceará, pela simplicidade da jangada e pela capacidade de expressar, em seus trabalhos, a força expressionista do brasileiro.

Participou de inúmeras exposições e mostras nacionais e internacionais de fotografia, obtendo Medalhas de Ouro em Frankfurt, Turim e Buenos Aires.

Considerações:

Welles ficou no Ceará por 06 semanas. O filme fazia parte da política da Boa Vizinhança, uma forma de os EUA manter sob-tutela os países latino-americanos.
Muitos rolos do filme foram jogados em alto-mar…
Com locações no Rio, Fortaleza, Bahia, pedaços de São Luís, Recife, e México, e com a maior parte da locação feita na ponte-aérea RJ-CE, sobraria a montagem póstuma do material considerado perdido, realizado por Welles, em 1942
O episódio cearense, “Quatro homens numa jangada”, mostrar-se-ia o mais completo daquilo a ser resgatado. São 46 minutos buscando respeitar o roteiro original, com uma folha de 12 cenas principais.
O público brasileiro teve acesso ao filme, pela primeira vez na história, somente em 1986 e 1994. Em 1985 o público de Fortaleza assistira o longa “Nem tudo é Verdade”, de Rogério Sganzerla, recriação dramatizada da passagem de Welles pelo Brasil. Nessa época, o Globo Repórter também apresentou as cenas.
Já em 1994, o público viu as imagens editadas que Welles fez dos jangadeiros; o trabalho reúne depoimentos antigos sobre o inacabado filme, resgatando imagens cariocas do Carnaval, jangadeiros cearenses, com 42 minutos e o segmento mexicano do filme “My friend bonito”.
Welles ficou hospedado no Excelsior Hotel, o primeiro arranha-céu de Fortaleza, levantado em 1931. Bebeu guaraná e fazia reuniões no Jangada Club, primitiva construção, infelizmente demolida nos anos 80. Lá, se encontrava, nas paredes, autógrafos do cineasta. Uma pena.

Foto do Jangada Club, do Museu de Imagem e do Som (MIS-CE)

Welles soube da existência do Dragão Mar (José do Nascimento), o herói abolicionista cearense que se recusava a desembarcar os escravos. Sabe-se que o Ceará foi o primeiro Estado a abolir a escravatura, por isso, chamado de “Terra da Luz”.

Curiosidades:

Welles foi um dos dez maiores cineastas de todos os tempos.
Cidadão Kane (1941) um dos maiores ícones do cinema, filme de Welles.
“It’s all true”: Para Welles seria o melhor filme do mundo, mas “este foi o desastre de minha história”

Foto:


crédito: Diário do NE

A notícia de que marcianos haviam chegado à Terra e estavam em Nova Jersey foi transmitida com imenso realismo pela rádio CBS no dia 1o de novembro de 1938 (Halloween). Milhares de pessoas entraram em pânico e começaram a fugir de suas casas ao ouvir os boletins, narrados por Orson Welles. Tudo não passava de pura brincadeira, a leitura dramatizada do texto de ”A Guerra dos Mundos”, um clássico da ficção científica de H.G. Wells.

Créditos deste trabalho:
– Livro“Pensamento Vivo” de Orson Welles, uma coleção dos pensadores, da Martin Claret Editores (1986).
Livro “Orson Welles no Ceará”, de Firmino Holanda, Edições Demócrito Rocha, 2001
Arquivo Nirez / Arquivo Firmino Holanda
Banco de Dados O Povo
Casa Pirata de Fortaleza
Sites, Revistas, Jornais:
filme http://www.lmm.jussieu.fr/~lagree/DI…ngadaINDX.html
http://www.arkepix.com/kinok/DVD/WEL…_all_true.html
Multiply.com (by Isabel)
Diário do Nordeste
Estadão
Educação UOL
Reportagem de Welles (Revista Antiga Portuguesa, ‘O século Ilustrado, de 1946’))

Entrevista com Firmino Holanda, autor de Orson Welles no CE

***Orson Welles entre nós – Matéria Diário do Nordeste, 2001
No primeiro semestre de 1942, Orson Welles veio ao Brasil, com passagem pelo Ceará, para produzir um filme que retratasse a realidade da América Latina. A primeira vista, o projeto se revestia de um caráter oficial – era fruto de uma aproximação cultural intensa entre o governo norte-americano e os países do Cone Sul. Indomável como sempre, Welles rodava um filme sobre a América Latina sim, mas ao seu estilo, sem concessões. A ousadia lhe custou os incentivos e a concretização do filme. Findado os episódios, sobram especulações e faltam explicações detalhadas sobre a aventura do cineasta por estas plagas. Crítico de cinema e historiador, Firmino Holanda tenta jogar uma luz neste nevoeiro em “Orson Welles no Ceará”.

Na obra, o autor reconstrói a controversa passagem do cineasta pelo Estado, seus contatos com os jangadeiros e os pormenores desta relação. Na ocasião, serão apresentadas as cenas cearenses de “It’s All True”.

Caderno 3 – Como surgiu a idéia de produzir um livro sobre a passagem de Orson Welles no Ceará?
Firmino Holanda – Eu sempre pesquisei cinema cearense, desde o final dos anos 70, e no caso do Orson Welles especificamente – que é um assunto fascinante, um gênio filmar aqui em Fortaleza -, eu me motivei quando li um texto do Alex Vianni, crítico de cinema, no Jornal do Brasil. Então me interessei e passei a pesquisar, a juntar os fragmentos dessa história que nunca foi contada no todo. Inclusive esse meu livro, que eu saiba, é o primeiro livro do Orson Welles no Brasil. Então desde os anos 80, eu junto material, escrevo. A matriz mesmo foi um pequeno ensaio que eu publiquei na revista “Nação Cariri”, em 1986, em que eu juntava os primeiros fragmentos coletados. Apenas para avançar: eu preparo há muitos anos um livro sobre a história do cinema no Ceará – tudo que foi filmado aqui, por nós particularmente. Aí o Orson Welles entrou também na história. Mas eu tinha um certo pudor porque ele é um estrangeiro. Mas quando eu vi o filme mesmo, as imagens de Orson Welles no Ceará – um filme de 46 minutos, mostrando a nossa vida, a nossa realidade – eu disse que este filme é nosso mesmo. Então, nesse meu livro tem um capítulo sobre Orson Welles, mas que se detém aos aspectos cinematográficos. Como a pesquisa estava crescendo, eu preferi fazer um livro separado. Fisguei o capítulo – não o retirei do livro – e o ampliei ao máximo: fiz uma análise comparando ele ao Eisenstein, aprofundei a questão da política da boa vizinhança, a questão do Mucuripe, os causos em torno do diretor. Fiz um livro maior e recebi o convite para publicá-lo.

Caderno 3 – O fato aconteceu no início dos anos 40, durante a chamada “política da boa vizinhança”. Você poderia explicar por que Welles decidiu vir para o Ceará?
Firmino Holanda – A interferência norte-americana no continente sempre ocorreu, através da violência ou não. Quando chega a década de 30, essa coisa se atenua, tem a diplomacia do dólar, o panamericanismo, outra formas de se chegar na América Latina sem ser no “canhão”. Quando estoura a Segunda Guerra Mundial, o Brasil vivia o Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, que namorava com a Alemanha nazista. Mas os Estados Unidos queriam estender a sua influência sobre o continente por questões econômicas, militares. Então, eles pressionavam o governo Vargas para ceder as suas bases e também se juntar com os aliados contra o fascismo. Cria-se, então, um birô interamericano, liderado por Nelson Rockfeller, um magnata e dono de estúdio com pretensões de ser presidente. Este birô vai traçar uma política de aproximação cultural com a América Latina, com um segmento ligado ao cinema – até então, os filmes feitos sobre a América Latina eram folclorizantes. Orson Welles vem nesse bojo: “coloquemos o homem que fez Cidadão Kane para realizar um filme latino-americano de qualidade”. Mas os problemas surgiram porque a visão dele não era condizente com a visão turística, atenuada da realidade. Ele mostrava negros dançando carnaval, favelas, os pescadores pobres e isto criou um mal-estar junto à censura do Estado Novo, atribulou a política da boa vizinhança.

Caderno 3 – Por conta deste choque de interesses, ele teve as verbas do filme suspensas e seguiu para o Rio de Janeiro. Como foi o encontro com os pescadores?
Firmino Holanda – Ele chegou primeiro no Rio de Janeiro, no carnaval de 1942, para filmar a festa, criar uma história sobre o carnaval. Quando terminou, ele veio à Fortaleza para manter os primeiros contatos com os jangadeiros, porque ele tinha interesse em filmar a história dos jangadeiros cearenses que viajaram, durante 61 dias, até o Rio de Janeiro, para chamar a atenção pública paras as condições de vida dos pescadores – era um ato político. Ele queria filmar este episódio, que foi matéria na revista Time. O Orson Welles leu este artigo e ficou encantado. Ele levou alguns jangadeiros para o Rio, para filmar a cena da chegada deles – ele começou pelo final. Ele filmou as cenas e foi quando aconteceu o acidente que fez desaparecer o Jacaré, um dos jangadeiros. O filme ficou num impasse, mas Welles estava decidido a finalizá-lo. Em junho ele retornou à Fortaleza para concluir as filmagens. O filme “It’s All True” ficou inacabado, mas ele filmou tudo. O problema era a questão da censura, tanto do estúdio RKO quanto do Estado Novo. Eu sei que boa parte do filme ficou escondida, tem aquela história de que muita coisa foi jogada ao mar.

Caderno 3 – Mas alguma parte deste material foi recuperada?
Firmino Holanda – O Orson Welles morreu em 1985, mas pouco antes, um pesquisador encontrou os negativos no acervo da Paramount – a RKO já não existia mais. Depois da morte do Welles, eles começaram a fazer uma recuperação destas imagens e ainda bem que a parte cearense ficou preservada, pelo menos é o que se percebe no documentário “It’s All True” sobre o filme inacabado. A parte cearense está completa, com pouco mais de 40 minutos, sem cortes. O documentário mostra o Mucuripe, os pescadores construindo jangadas, fazendo redes, a história da viagem, a passagem por Recife e Salvador, a chegada ao Rio de Janeiro.
Muito obrigado. http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=723286     Sílvio Caldas – JANGADA – Hervé Cordovil – Vicente Leporace

VEJA MAIS:

Beberibe, terra de heróis

A saga dos jangadeiros em busca de seus direitos

Leia Mais
História

A saga dos jangadeiros em busca de seus direitos

beberibe_4_homens_uma_jangada_descubra_beberibe_resistencia_getulio_vargas

Felizmente um dos papéis da História, não é somente transmitir conhecimentos sobre o passado; é investigar e quebrar certos dogmas formados através do tempo e que encontraram ressonância no senso comum. A historiadora cearense Berenice Abreu fez esse trabalho com grande competência ao analisar sobre um episódio assombroso ocorrido em plena “ditadura” do Estado Novo, mais precisamente no ano de 1941: a saga de quatro humildes jangadeiros – Jacaré, Jerônimo, Mané Preto e Tatá – pescadores, trabalhadores brasileiros – que saíram de Fortaleza de jangada, navegando os mares bravios do nordeste, enfrentaram fortes ondas, tempestades e tubarões, até o Rio de Janeiro, para apenas falar com o presidente Getúlio Vargas. A pauta da conversa? Expor ao presidente a situação dos pescadores da Colônia Z-1 – a mais antiga colônia de pesca do Ceará -, que viviam uma situação bastante ruim, enfrentando o descaso da Federação dos Pescadores daquele estado, obrigados a dividir o pescado acumulado no final do dia com os donos das jangadas e os intermediários que atuavam nas vendas dos peixes – os ganhos financeiros dos pescadores eram mínimos e eles não se viam representados naquela Federação.

A autora procura também analisar sobre a origem do espaço onde os jangadeiros viviam, na praia de Iracema. Inicialmente habitado por pescadores humildes, o espaço foi sendo tomado por ricos proprietários oriundos do sertão cearense. O Ceará, diferente dos pólos hegemônicos coloniais – como Recife e Salvador – teve seu processo de ocupação no interior – nas cidades de Aracati, Icó e Sobral, com extensiva criação de gado -, que gradativamente migrou para o litoral, durante a segunda metade do século XIX. Fortaleza passou a ser então, com o implemento da malha ferroviária e aumento das vias de comunicação, o principal ponto de escoação da produção interiorana – o algodão para exportação. Os pescadores passavam o dia – às vezes semanas – no mar e o pescado era para comércio e sustento próprio de suas famílias. Moravam em casebres e choupanas, bastante humildes e enquanto buscavam peixes, suas esposas faziam rendas para ajudar no orçamento.

Edmar Morel, Jacaré e Welles

Jacaré e seus companheiros percorreram grande parte da costa brasileira em 61 dias de viagem, chegando à capital da República no dia 15 de novembro de 1941 – a data de chegada não foi mera coincidência: o governo brasileiro, ao saber do empreendimento, apoiou a viagem dos jangadeiros – afinal, a iniciativa trazia uma imagem bastante positiva para o Palácio do Catete, reforçando o sentido de nacionalismo e de aproximação com setores mais humildes da população. O governo desejava que a chegada ocorresse em 10 de novembro – aniversário do Estado Novo.

Como enfrentaram contratempos – como fortes tempestades e correntezas no sul da Bahia -, Jacaré e seus amigos atrasaram a viagem. Por volta do dia 13 e 14 de novembro já se encontravam em Macaé e Cabo Frio, respectivamente, forçando a chegada ao Rio no dia 15 – dia da proclamação da República. No período em que estiveram fora de Fortaleza, na viagem ao Rio, os pescadores tiveram ajuda de custo de algumas pessoas de grande notoriedade na sociedade, como Dona Mariinha Holanda, católica fervorosa e bastante atuante em trabalhos beneficentes na região, e o Dr. Fernando Pinto, presidente do Club Jangada. A viagem foi custeada por associações de moradores, entidades desportivas, por parte da população de Fortaleza e contou com ampla cobertura dos jornais dos Diários Associados. Anos antes, o próprio Assis Chateaubriand participara de uma corrida de jangadas na praia de Iracema, na embarcação de mestre Jerônimo. O repórter Edmar Morel acompanhou a viagem (por terra), em cada localidade onde os jangadeiros paravam a jangada para o pernoite.

O Rio de Janeiro se vestiu com as cores da pátria para receber os intrépidos jangadeiros, que foram até o Catete conversar com o presidente e reivindicar seus direitos. A conversa foi coroada com um decreto presidencial que incorporava os pescadores ao Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM). Além de poder falar com o presidente, os jangadeiros ficaram famosos e foram capa de diversas revistas. Até despertar a curiosidade de Hollywood.

Livro9CapaHistricadeOPovo1942Orson Welles, cujo filme “Cidadão Kane” havia sido exibido cerca de três meses antes nos cinemas brasileiros, ficou interessado em filmar a saga dos quatro jangadeiros cearenses. Em consonância com a Política da Boa Vizinhança implementada pelo Departamento de Estado dos EUA, o jovem ator-diretor veio ao Brasil para filmar uma série de documentários, entre eles, a viagem dos jangadeiros. Seu primeiro contato com Jacaré aconteceu numa suíte do Copacabana Palace e o humilde jangadeiro estava bem à vontade e confortável nas palavras, sem qualquer travamento por estar diante do astro de cinema.

Com uma câmera na mão e um orçamento bastante reduzido, Welles levou adiante seu propósito de mostrar ao mundo a sagacidade dos quatro jangadeiros. Só não contava que um deles – justamente Jacaré – viesse a morrer durante a gravação do documentário, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Num dia de forte neblina e mar com correnteza, a jangada que levava Jacaré, mestre Jerônimo, Mané Preto e Tatá virou. Apenas Jacaré – que sabia nadar – não se salvou e desapareceu para sempre. O cineasta estadunidense foi um dos que mais lamentou o desaparecimento de Jacaré e finalizou as filmagens do documentário, que infelizmente, perdeu-se com o tempo, devido ao desinteresse de quem o financiava bancar os custos finais de produção. Apenas em 1985 as latas de filmes foram achadas num estúdio, na Califórnia. Em 1993 foi iniciada a recuperação e edição dos negativos, que se transformaram, anos depois, em curta-metragens.

Quando Getúlio Vargas foi eleito, o cearense foi novamente à Guanabara falar com o presidente. E em 1958 sua jangada singrou ondas internacionais: após seis meses de viagem chegou a Buenos Aires, onde Jerônimo queria presentear Arturo Frondizi, presidente argentino, com sua jangada. Não tendo conseguido fazer isso, restou o consolo de ver muitos argentinos admirando a jangada, exposta na capital daquele país.

orson_welles_em_fortaleza_1942_gravando_o_filme1

Mais importante do que as viagens que se sucederam, no entanto, é refletir sobre a importância do que representou, de fato, a viagem que os quatro jangadeiros fizeram em 1941. É entender o heróico feito como um símbolo de atuação e participação de trabalhadores humildes na sociedade, com suas queixas, reclamações e reivindicações. É também compreender a consciência de classe dos pescadores, entendedores de seus direitos sociais. A viagem gerou ondas e caminhos que possibilitaram que outras categorias de trabalhadores também quisessem se ver representados na sociedade.Os outros companheiros de Jacaré fizeram outras viagens. Mestre Jerônimo viajou com sua jangada em 1951 e 1958.

Leia Mais
BeberibeHistória

O Mercado Público, as feirinhas e a simplicidade de uma vida feliz

DescubraBeberibe_Beberibe-9

Ok, as praias de Beberibe são deslumbrantes e pode parecer perda de tempo não gastar todos os minutos no Ceará curtindo uma praia. Mas a gente traz aqui uma dica pra um passeio matinal que faz um recorte bastante interessante desta cidadezinha incrível que é Beberibe.  Pelas manhãs, bem cedinho, no centro, o Mercado Público abre com peças fresquinhas de espécies como guarajuba, cavala, serra, cioba, gaiuba, ariacó, beijupirá, arraia e tudo mais que os pescadores angariam em suas viagens pro mar. É lá também que você vai encontrar  camarão e caranguejo, estes últimos comercializados do lado de fora do mercado.  Ao contrário do sul do país, aqui é bem cedo que a vida acontece. Pelas manhãs a cidade enche de gente de todas as localidades, paus de arara vem para reabastecer as comunidades do sertão, e a simplicidade da vida fica transparente nas interações entre todas as gentes.

O Mercado Público fica um pouco escondido, num bequinho bem central, ao lado da Farmácia Jesus. No entorno há também dois centros de abastecimento e ao lado do mercado do Peixe mais duas feirinhas, uma na quadra interna do mercado com itens de vestuário e às vezes decoração, e na pracinha ao lado, uma feira de alimentos e de secos e molhados.

O passeio vale demais pelas histórias que se ouve em um dedo de prosa, e pela observação que proporciona de uma dinâmica muito própria de Beberibe e dos beberibenses. E se você quiser levar pra casa peças curiosas como um autêntico ralador de coco cearense, é lá que você vai encontrar.

Aproveite para tomar um sorvete, visitar o Memorial que conta parte da história da cidade,  e andar tranquilo pelas ruas. Você é bem-vindo aqui. Explore, divirta-se, descubra Beberibe.

Leia Mais
1 2
Page 1 of 2